A indústria fonográfica global comemora. E com razão — pelo menos à primeira vista.
São 11 anos consecutivos de crescimento. US$ 31,7 bilhões em receitas em 2025. O streaming consolidado como espinha dorsal do negócio. Depois de uma crise devastadora nos anos 2000, o setor parece ter reencontrado seu eixo. Mas talvez o problema comece justamente aí: quando o crescimento vira argumento suficiente.
Porque há uma pergunta incômoda, que insiste em atravessar qualquer análise mais honesta: esse crescimento está distribuído — ou concentrado? A resposta, cada vez mais evidente, é a segunda.
Brasília, 22 de abril de 2026
A ilusão da democratização
O discurso da última década foi sedutor: o streaming democratizou a música. Qualquer artista, de qualquer lugar, pode lançar, distribuir e alcançar o mundo.
Tecnicamente, isso é verdade. Economicamente, não.
A mesma infraestrutura que ampliou o acesso criou um sistema brutalmente seletivo, onde visibilidade e remuneração são determinadas por lógica algorítmica, escala e repetição. O resultado é um mercado onde poucos capturam quase tudo — e milhões orbitam sem conseguir transformar presença em receita.
A decisão de plataformas como o Spotify de não remunerar faixas com baixo volume de execuções não é um detalhe técnico. É um posicionamento. É a formalização de uma ideia perigosa: só merece existir economicamente aquilo que performa em escala.
Quando a música vira dado
O que está em jogo não é apenas um modelo de distribuição de receita. É uma mudança mais profunda sobre o que define valor na música. Antes, a indústria filtrava. Hoje, ela ranqueia.
E nesse ranking, a música deixa de ser apenas expressão para se tornar variável de desempenho. O que importa não é só a obra, mas sua capacidade de gerar retenção, alimentar playlists, sustentar o fluxo.
Nesse contexto, o artista não compete apenas com outros artistas. Compete com o próprio sistema. E quase sempre perde.
O Brasil: potência cultural, fragilidade estrutural
O Brasil ocupa um lugar curioso — e, de certa forma, desconfortável — nessa equação.
Somos um dos mercados que mais cresce em consumo. Exportamos sons, influenciamos tendências, dominamos plataformas em volume. Mas seguimos com baixa captura de valor.
A dependência de plataformas globais, a concentração de receita em poucos nomes e a dificuldade estrutural de monetização para artistas independentes criam um cenário onde a produção cultural é intensa — mas economicamente desigual.
Em outras palavras: produzimos muito, mas ganhamos pouco. E talvez mais grave: naturalizamos isso.
O silêncio como modelo de negócio
Quando milhões de faixas deixam de ser remuneradas, não estamos falando apenas de números. Estamos falando de um modelo que escolhe, ativamente, quem pode viver de música.
E quem não pode. Esse não é um efeito colateral. É uma arquitetura.
Um sistema que funciona perfeitamente para maximizar eficiência, engajamento e receita — mas que, ao mesmo tempo, reduz drasticamente as possibilidades de sustentabilidade para a base da cadeia criativa.
A pergunta, então, muda de tom: estamos diante de uma indústria da música — ou de uma indústria da atenção que usa a música como matéria-prima?
E agora?
O mais desconcertante talvez seja perceber que o modelo funciona. Para investidores, para plataformas, para grandes catálogos, para os poucos artistas que operam em escala global — ele entrega exatamente o que promete.
Mas para o ecossistema como um todo, a conta não fecha. E aí surge o dilema que o setor ainda evita encarar de frente:
. é possível crescer sem concentrar?
. é possível escalar sem excluir?
. é possível construir um mercado onde mais gente viva de música — e não apenas sobreviva nela?
Enquanto essas perguntas permanecerem sem resposta, qualquer comemoração de crescimento será, no mínimo, incompleta.
Porque, no fim, talvez a indústria não esteja exatamente em crise. Mas também está longe de ser saudável.
Musicalmente,
Gustavo Vasconcellos