Há eventos que nos impressionam pela programação.Outros, pelas pessoas que reúnem. E há aqueles que conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Passada uma semana de sua realização, foi essa a sensação que tive ao participar do Trends Brasil Conference 2026.
Ao longo de dois dias, o congresso reuniu profissionais de diferentes segmentos da indústria da música para discutir temas que vão muito além do mercado fonográfico. Inteligência artificial, direitos autorais, distribuição digital, marketing, tecnologia, gestão, empreendedorismo, inovação, audiovisual, monetização, comportamento do consumidor, plataformas, internacionalização e novos modelos de negócios dividiram espaço com debates igualmente relevantes sobre carreiras, criatividade e transformação do setor.
Mas o que mais me chamou a atenção não foi apenas a riqueza da programação. Foi a riqueza dos interesses.
Ali estavam artistas, executivos, produtores, advogados, empreendedores, gestores, startups, gravadoras, distribuidoras, editoras, sociedades de gestão coletiva, empresas de tecnologia, plataformas, investidores e marcas.
Pessoas diferentes.Negócios diferentes.Visões diferentes.
Mas todas movidas pela mesma inquietação: compreender o futuro para tomar melhores decisões no presente.
Cada vez mais percebemos que o desenvolvimento do setor não depende apenas de talento artístico. Exige conhecimento, gestão, inovação, articulação institucional, tecnologia e capacidade de cooperação.
Essa talvez tenha sido a principal mensagem do Trends.
Isso é bom ou ruim? Melhor ou pior? Ideal ou surreal?
Eventos como esse nos lembram que o conhecimento deixou de ser um patrimônio individual.
Hoje ele nasce da convivência. Da ideia que surge durante um intervalo em um ambiente, extraordinariamente cordial e sem barreiras artificiais. Com portas abertas para quem deseja aprender, ensinar, colaborar e construir.
Mais do que networking, encontrei disponibilidade.
Mais do que apresentações institucionais, encontrei escuta.
Mais do que reuniões, encontrei possibilidades.
Também reencontrei pessoas com quem a vida profissional havia cruzado em outros momentos. Portas que estavam apenas entreabertas voltaram a se abrir.
Outras foram definitivamente escancaradas.E, talvez mais importante, novas portas surgiram.
Algumas ainda sem nome. Outras já apontando para projetos, cooperações e iniciativas que certamente continuarão sendo desenvolvidas muito depois do encerramento do congresso.
Outro aspecto que merece destaque foi perceber que esse movimento nasceu, essencialmente, da própria iniciativa privada.
Empresas, plataformas, artistas, distribuidoras, editoras, sociedades de gestão coletiva, startups, especialistas e empreendedores reuniram-se não para reivindicar soluções, mas para construí-las.
Isso demonstra a maturidade de um setor que compreende que colaboração, inovação e compartilhamento de conhecimento são ativos tão importantes quanto a própria música.
Ao mesmo tempo, o encontro desperta uma reflexão. Se a iniciativa privada demonstra tamanho protagonismo, talvez tenha chegado o momento de ampliarmos essa mesa.
Senti falta de uma participação mais expressiva das instituições públicas ligadas ao desenvolvimento desta economia. Não porque o Estado deva conduzir esse movimento. Mas porque pode contribuir para acelerá-lo.
Há uma enorme oportunidade de aproximar quem formula políticas públicas de quem enfrenta diariamente os desafios da criação, da circulação, da distribuição, da gestão de direitos, da tecnologia, da internacionalização e da sustentabilidade econômica da música.
Acredito que o futuro será tanto mais sólido quanto maior for a convergência entre iniciativa privada, academia, sociedade civil organizada e poder público. Talvez este seja o próximo passo.
Parabenizo a equipe do Trends Brasil Conference pela excelência da organização e pela sensibilidade em construir um ambiente onde conteúdo, negócios e relacionamento convivem de maneira tão equilibrada.
Saio deste encontro convencido de que o maior patrimônio de eventos como esse são as pessoas.
Porque são elas que transformam conhecimento em cooperação. Cooperação em projetos.
E projetos em desenvolvimento.
O nome disso seria inovação?
Musicalmente,
Gustavo Ribeiro de Vasconcellos