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Onde estava a música? – Uma reflexão a partir do Congresso da Abrasel

Onde estava a música? – Uma reflexão a partir do Congresso da Abrasel

Há inquietações que não surgem durante uma palestra. Surgem no intervalo para um café.

Foi exatamente assim.

Enquanto participava do 38º Congresso Nacional da Abrasel, em Brasília, observava a diversidade de empresários, especialistas, fornecedores, gestores e lideranças reunidos para discutir o futuro do setor de bares e restaurantes. A programação abordava comportamento do consumidor, comunicação, pertencimento, inovação, gestão, tecnologia, relações de trabalho e tantos outros temas fundamentais para quem vive da alimentação fora do lar.

Em determinado momento, olhei ao redor e me ocorreu uma pergunta simples, mas profundamente inquietante:

Onde estava a música?

Até onde consegui perceber, eu era o único representante de uma instituição dedicada exclusivamente à cadeia produtiva da música.

Não escrevo isso como uma crítica à Abrasel. Muito pelo contrário. Saio do congresso admirado pela qualidade dos debates e pela capacidade que a entidade demonstra em reunir diferentes segmentos para pensar, de forma coletiva, o futuro de um dos setores mais importantes da economia brasileira.

Minha inquietação é outra.

Como podemos discutir o futuro dos bares e restaurantes sem que a cadeia produtiva da música esteja presente?

A música sempre foi muito mais do que entretenimento. Ela ajuda a construir a identidade de um estabelecimento, influencia o tempo de permanência do cliente, cria memórias afetivas, fideliza públicos, humaniza ambientes e transforma uma simples refeição em uma experiência.

Quantas pessoas escolhem um bar porque haverá uma roda de samba?

Quantas procuram um restaurante pelo piano, pelo jazz, pelo chorinho ou pela música regional?

Quantos artistas encontraram nesses espaços seus primeiros palcos?

E quantos técnicos de som, produtores, iluminadores, fotógrafos, designers, assessores de imprensa, empresários, compositores e músicos construíram suas trajetórias graças a esse ecossistema?

Talvez os hábitos de consumo tenham mudado.

Talvez parte da música ao vivo tenha migrado para festivais, casas de espetáculo, eventos privados ou plataformas digitais.

Talvez alguns estabelecimentos tenham encontrado novas formas de atrair e fidelizar seus clientes.

Mas nenhuma dessas hipóteses explica, por si só, a ausência de representantes da música em um dos principais fóruns de discussão sobre um setor que, historicamente, sempre caminhou ao lado dela.

Se bares e restaurantes discutem seu futuro sem ouvir a música, e a música debate seus próprios desafios sem dialogar com bares e restaurantes, ambos deixam de enxergar oportunidades que poderiam beneficiar os dois lados.

Porque não estamos falando apenas de shows.Estamos falando de economia criativa, de turismo,de desenvolvimento local, da ocupação qualificada dos espaços urbanos e da geração de emprego e renda.

Talvez tenha chegado o momento de aproximarmos novamente esses dois universos?

De colocarmos na mesma mesa empresários da alimentação fora do lar, músicos, produtores, gestores culturais, pesquisadores, programadores, representantes de entidades e todos aqueles que compreendem que cultura e hospitalidade caminham juntas.

Não para defender interesses isolados. Mas para construir estratégias comuns.

Saí do Congresso da Abrasel com mais perguntas do que respostas. E talvez esse seja o maior legado de um bom congresso: provocar reflexões capazes de abrir novos caminhos.

Afinal, quem imagina um grande bar sem música?
Talvez esteja na hora de imaginar um grande debate sobre bares que também tenha a música sentada à mesa.

Musicalmente,

Gustavo Vasconcellos

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