Hoje termina mais uma Copa do Mundo.
Durante algumas semanas, milhões de pessoas interromperam a rotina para acompanhar jogos, discutir escalações, fazer previsões e, sobretudo, acreditar. A Copa tem essa capacidade rara de produzir esperança coletiva. De nos fazer imaginar que, daqui a pouco, tudo pode dar certo.
Independentemente do resultado, talvez essa seja sua maior força. Mas, quando o apito final chega, uma pergunta permanece: o que foi construído ao longo do caminho?
Tenho pensado muito nisso enquanto acompanho esta Copa. Não exatamente sobre futebol. Sobre construção.
Uma Copa do Mundo não nasce no dia da abertura. Ela começa anos antes. Há planejamento, formação de equipes, preparação física e emocional, testes, erros, mudanças de rota e incontáveis horas de trabalho invisível. Existe um sonho, mas existe, sobretudo, uma construção.
E talvez seja justamente essa a maior lição que a Copa deixa. Há alguns anos, vivo um processo muito semelhante.
Não, evidentemente, na dimensão de um Mundial de Futebol. Mas na lógica de quem acredita que projetos relevantes não surgem prontos. Precisam ser sonhados, compartilhados, construídos e, principalmente, sustentados ao longo do tempo.
Foi assim que nasceu o Prêmio Profissionais da Música.
Quando o PPM começou, em Brasília, em 2015, havia uma inquietação que me acompanhava há muito tempo: por que a música insistia em reconhecer quase sempre quem está no palco, deixando invisível uma imensa cadeia de profissionais que torna a arte possível?
Parecia uma pergunta simples. Descobrimos rapidamente que a resposta exigiria muito mais do que criar uma premiação.
Era preciso construir confiança.
Convencer pessoas de que fazia sentido reconhecer produtores, técnicos, pesquisadores, educadores, comunicadores, gestores, designers, luthiers, sonorizadores, iluminadores e tantos outros profissionais que sustentam a música todos os dias.
Era preciso reunir quem nunca havia sido convidado a ocupar o mesmo espaço. Era preciso criar um sentimento de pertencimento. Nada disso acontece sozinho.
Cada edição acrescentou uma camada à história. Vieram parceiros, patrocinadores, jurados, voluntários, artistas, instituições públicas e privadas. Vieram também os recursos insuficientes, as dificuldades logísticas, as incertezas, as noites sem dormir e a permanente necessidade de reinventar o projeto sem perder sua essência.
Foi justamente aí que compreendi uma diferença que hoje considero fundamental.
Projetos importantes não crescem porque o tempo passa. Eles crescem porque as pessoas permanecem.Porque continuam acreditando quando ainda não existem garantias.
Porque entendem que o legado nunca é produzido por um único momento extraordinário, mas pelo acúmulo de muitos pequenos gestos de continuidade.
Hoje, ao olhar para o caminho percorrido, vejo que o PPM deixou de ser apenas um prêmio.
Transformou-se em uma rede. Em uma comunidade.
Em um movimento que atravessou fronteiras, chegou à Ibero-América e continua se desdobrando em novas iniciativas, como a Academia dos Profissionais da Música (APM), concebida para dar continuidade a esse processo de formação, articulação e desenvolvimento permanente dos profissionais da música.
Nenhuma dessas iniciativas nasceu para substituir a anterior. Cada uma representa mais um capítulo da mesma história.
Talvez seja isso que tenha me provocado ao acompanhar a trajetória da Seleção Brasileira nesta Copa.
Não falo apenas dos resultados em campo. Falo da sensação de que faltou uma narrativa. Faltou perceber que uma seleção não representa apenas vinte e seis atletas.
Ela representa um projeto. Uma cultura. Uma identidade.
Um país inteiro que deseja reconhecer, naquele grupo, uma história que faça sentido.
A esperança esteve presente, como sempre está quando uma Copa começa. Afinal, torcer é acreditar.
Mas esperança, sozinha, não constrói legado. Ela precisa encontrar método. Precisa encontrar continuidade.
Precisa encontrar propósito.
Talvez por isso eu tenha gostado tanto de outra reflexão que li sobre a Copa e esperança.
Também [ a reflexão] mexeu com a minha. Mas fez isso por um motivo diferente.
Ela me lembrou que esperança não é esperar. Esperança é construir.
É reunir pessoas em torno de uma ideia quando ainda não existe nenhuma garantia de que ela dará certo. É seguir trabalhando quando o reconhecimento ainda não chegou.
É compreender que algumas das obras mais importantes da nossa vida talvez nunca sejam concluídas por nós mesmos, porque serão continuadas por outras pessoas.
No fundo, talvez essa seja a maior semelhança entre uma Copa do Mundo e qualquer grande projeto coletivo.
Nenhum deles pertence a uma única pessoa. São construções compartilhadas. E é justamente isso que lhes dá sentido.
A Copa termina hoje. Amanhã começa outro ciclo.
Quem vencer levantará a taça. Mas, daqui a alguns anos, poucos se lembrarão apenas do placar.
O que permanecerá será a qualidade da história construída.
É por isso que continuo acreditando menos nos grandes momentos e mais nas grandes construções.
Elas demoram. Exigem gente. Exigem generosidade. Exigem escuta.Exigem coragem para recomeçar sempre que necessário.
E, quando dão certo, transformam muito mais do que um evento.
Transformam pessoas. Transformam setores. Transformam culturas.
No fim das contas, talvez seja esse o verdadeiro legado de qualquer grande realização.
Não a conquista de um troféu. Mas a capacidade de fazer com que outras pessoas também queiram construir.
Musicalmente,
Gustavo Vasconcellos