Participar do 1º Seminário Mercosul do Rock foi, antes de tudo, uma oportunidade de escuta.
Quero começar agradecendo ao Setorial do Rock pelo convite e, principalmente, pela disposição em realizar um encontro dessa natureza. Quem trabalha com música sabe o esforço necessário para tirar uma iniciativa do papel. Reunir pessoas, articular instituições, construir uma programação e criar um ambiente onde ideias possam circular exige muito mais do que organização. Exige garra, persistência e uma convicção quase teimosa de que discutir o presente também é uma forma de construir o futuro.
Por isso, meu reconhecimento a todos que estiveram envolvidos na realização do Seminário.
Do convite
Recebi o convite para falar sobre Ecossistema da Música: perspectivas para o desenvolvimento do segmento. Preparar essa palestra foi um excelente exercício para mim.
Ao organizar ideias construídas ao longo de décadas de atuação na música, percebi que estava, na verdade, tentando responder a uma pergunta aparentemente simples: por que alguns ambientes musicais conseguem gerar desenvolvimento, oportunidades e continuidade enquanto outros permanecem dependentes de iniciativas isoladas?
Minha trajetória profissional me ensinou que uma música pode nascer de uma única pessoa. Mas ela só passa a existir plenamente quando encontra quem a faça circular. Arranjadores, músicos, produtores, técnicos, estúdios, designers, fotógrafos, comunicadores, distribuidoras, editoras, rádios, casas de shows, universidades, pesquisadores, patrocinadores, gestores e, naturalmente, o público.
Foi a partir dessa percepção que procurei desenvolver a ideia central da minha fala: um ecossistema não é um conjunto de indivíduos. É um conjunto de relações. Na apresentação, essa ideia se desdobra justamente na diferença entre uma cadeia produtiva linear e um ecossistema permanente, baseado em relações, sustentabilidade e geração de oportunidades.
E foi especialmente enriquecedor dividir essas reflexões com Leo Feijó, do Rio de Janeiro; Lucas Torosin, do Paraguai; Digão, da Musikorama; e Bono da Costa, diretamente de Madrid.
Diferentes territórios, experiências e perspectivas ajudaram a ampliar uma discussão que não pode e não deve pertencer a uma única pessoa.
Mas falar sobre ecossistema também exige observar as ausências.E algumas delas me provocaram.
Quem não estava na sala?
Ao olhar para um encontro dedicado a pensar o rock, senti falta justamente de alguns agentes que, durante décadas, usufruíram diretamente da força cultural, simbólica e econômica construída em torno desse gênero.
Onde estavam os músicos que atuam no circuito de covers? Onde estavam os proprietários de casas cuja programação foi, ou ainda é, sustentada pelo rock cover?
A pergunta não pretende diminuir a importância desses profissionais ou estabelecimentos. Pelo contrário. Eles também fazem parte do ecossistema.
Geram trabalho. Formam público. Mantêm repertórios em circulação. Ocupam palcos. Movimentam equipamentos, técnicos, bares, restaurantes e uma economia que existe em torno da música ao vivo.
Justamente por isso, sua ausência merece ser percebida.
Por que não vão?
Por que encontros que discutem o futuro do segmento parecem despertar tão pouco interesse em agentes que construíram seus negócios dentro desse próprio ambiente?
Será que acreditamos que um mercado se perpetua sozinho?
Será que é possível continuar usufruindo de um território cultural sem participar das discussões sobre sua preservação, sua renovação e seu futuro?
E aqui retorno ao conceito de ecossistema.
Na natureza, não existe um agente completamente independente dos demais. Na música também não. A própria palestra parte dessa imagem para lembrar que árvore, raiz, solo, água, insetos, fungos, polinizadores e sol participam da existência da floresta.
Talvez um dos maiores desafios da música seja fazer com que aqueles que usufruem do ecossistema também se reconheçam como responsáveis por sua continuidade.
Não basta ocupar o palco. Não basta abrir a casa. Não basta vender ingressos, bebidas ou contratar bandas.
Se queremos que nossos negócios existam daqui a dez, vinte ou trinta anos, precisamos participar dos ambientes onde o futuro desses mercados está sendo discutido.
Precisamos ouvir.Discordar.Propor.Compartilhar experiências.Produzir dados.Formar novos profissionais.
Construir relações.
Porque projetos terminam. Ecossistemas permanecem quando existe quem cuide das relações que os mantêm vivos. Essa noção de legado, aliás, aparece entre os princípios estruturais apresentados no Seminário.
Saí do Seminário Mercosul do Rock agradecido pelo convite, pelas conversas e pelas provocações.
Mas saí também com uma pergunta.
Quando a música se reúne para pensar o próprio futuro, quem ainda precisa entender que também deveria estar na sala?
Musicalmente
Gustavo Vasconcellos