O que é viver uma experiência para você, sob o ângulo obtuso do consumo?
Brasília, 27 de janeiro de 2026
Não estou falando de “ir a um lugar legal”. Nem de “postar uma noite bonita”. Nem daquelas listas prontas do tipo “10 coisas imperdíveis para fazer antes dos 40”. Estou falando de experiência como aquilo que atravessa a gente por dentro — e que, sem pedir licença, fica.
Esse texto nasce de três percepções colhidas no verão de 2026, ao longo dos primeiros 25 dias do ano.
De um lado, entre 24 de dezembro e 8 de janeiro, duas percepções inesquecíveis sobre música ao vivo em João Pessoa (PB). Do outro, nesta semana em Brasília, durante a inauguração de um novo bar na cidade chamado Caseratto. E por fim, como um empurrão final — ou fatal —, a demolição do legendário Teatro Procópio Ferreira, com seus 70 anos de história, na cidade de São Paulo.
Antes de falar das experiências, eu preciso perguntar: para onde vão as nossas memórias sem o Teatro Procópio?
Que destino têm os nossos símbolos, quando uma cidade decide que eles não cabem mais no seu futuro?
Será que o teatro virou um inconveniente? Um luxo? Uma “estrutura cara” demais para um tempo em que o critério “satisfação” aparece por último na planilha da economia?
A vida virou uma disputa de interesse ou o mundo virou um lugar onde qualquer coisa compete com qualquer coisa?
E o que, afinal, significa “experiência”, quando a gente mercadologiza até a profundidade dessa palavra?
Estamos falando de vivência ou de performance?
De presença ou de consumo?
De memória ou de tendência?
Em busca de riquezas culturais e belezas naturais, escolhi João Pessoa para os quinze dias de férias dedicados a mim e à minha família porque queria mais do que a experiência do encontro do mar com o céu — que, como disse Baudelaire, é o símbolo da eternidade.
Queria absorver de mais perto raízes culturais — essas que aprendi a admirar com ainda mais interesse desde 2005, quando vivi a primeira edição da Feira da Música Independente Internacional de Brasília.
João Pessoa me recebeu com praias lindas, sim — as muitas que ainda estão lindas. Mas, ao lado do paraíso natural, eu vi algo que jamais imaginei em terras de cultura fértil.
De um lado, um mega palco pronto para receber multidões, semana após semana, em shows de freis e pastores, com mensagens carregadas de uma evangelização performática, que sabe se vender como espetáculo.
De outro lado, a sucessão de grupos do que me apresentaram como “forró romântico”. E eu não estou aqui para desrespeitar gosto popular, muito menos a alegria coletiva. Mas há uma questão dolorosa: de romântico, aquilo não tem nada, começando pela apropriação do termo forró e pela desconexão com a liturgia de um gênero reconhecido mundialmente — um gênero que é chão, suor, história, identidade.
E onde estava o forró de verdade? Onde estava a tradição que formou um povo?
Onde estava a música que não pede permissão para existir?
Estava nos quiosques e barzinhos próximos à orla — para platéias minúsculas — vendo a multidão consumir, em volume, um pseudo desdobramento de sua legítima origem… enquanto o que é verdadeiro segue vivo, lamentavelmente, à margem.
Mas vi também outra coisa — e essa me chamou atenção em contraposição com Brasília: nas 11 noites em que saí para jantar nos restaurantes da cidade, em todos, sem exceção, havia um piano e um pianista.
E não eram teclados irritantes.
Eram pianos.
Não era um luxo. Não era “um projeto especial”. Era parte do cotidiano.
Eu não apurei valores. Não sei que renda era aquela. Mas eu vi algo que tem se tornado raro: trabalho acontecendo. Música como profissão. Música como presença — ainda que “de fundo”, ainda que sem os clássicos daquela região, ainda que discreta como quem pede licença para existir.
E aí eu volto para Brasília.
Brasília, que acaba de abrir um novo bar/restaurante, bonito, bem posicionado, com design, promessa e discurso. Mas com um novo hábito que ainda não me acostumei: caixas de som e playlists.
É isso mesmo: sem sequer um DJ passador de músicas — que, me desculpe, não pode ser colocado na mesma frase que meus amigos DJs de verdade, aqueles que dominam narrativa, leitura de pista, repertório, timbre, pulsação, história. DJ não é apertar play. DJ é conduzir uma viagem.
Mas a pergunta maior não é sobre DJs.
É sobre música ao vivo. Porque música ao vivo não é enfeite.
É risco. É corpo. É suor. É garganta. É ouvido. É hora marcada com o presente.
Mas em Brasília, música ao vivo… ou a vizinhança não deixa. Ou o IBRAM. Ou o deputado. Ou o juiz.
Instâncias não faltam.
Já experiências — profundas — na capital do país estão cada dia mais reduzidas, em contraposição à sua tradição criativa.
E talvez, no fim, não seja apenas uma questão de agenda cultural. Seja uma questão de alma urbana.
O que a gente está chamando de experiência hoje?
Uma taça bonita e uma foto?
Ou uma noite em que a música, por alguma razão, fez a gente lembrar quem é?
Porque existe um tipo de lembrança que não nasce do que foi comprado. Nasce do que foi vivido.
Nasce do arrepio que ninguém fotografou.
Da letra que alguém cantou errado de propósito só para sorrir.
Do silêncio respeitoso entre uma música e outra.
Do instante em que você percebe que não está consumindo nada — está apenas sendo atravessado.
Eu ainda acredito que a música ao vivo é uma das últimas experiências verdadeiras que restam — porque não dá para acelerar, não dá para cortar em dois minutos, não dá para pular para o próximo assunto. Ela te obriga a ficar.
E ficar tem sido a coisa mais difícil do mundo.
E aí na sua cidade? A música ainda está viva no cotidiano?
Ou ela já virou só mais um detalhe decorativo num mundo que tem pressa demais para sentir?
Musicalmente,
Gustavo Vasconcellos