Brasília, 10 de fevereiro de 2026
Escrevo este texto a partir de um lugar muito concreto: o da prática.
Não da teoria abstrata, nem do discurso confortável. Falo desde o território de quem edita, licencia, negocia, traduz interesses e sustenta processos para que a música — especialmente a música feita fora dos centros hegemônicos — consiga existir no mercado sem ser esmagada por ele.
O lançamento de “Rosas” , da artista Atitude Feminina de São Sebastião – Brasília, sincronizada no longa-metragem Todo Amor é Sagrado, não é apenas um acontecimento artístico. É um exemplo vivo daquilo que quase nunca se discute com profundidade no Brasil: o que realmente está em jogo quando uma música entra numa obra audiovisual.
Sincronizar não é “colocar uma música em um filme”.
Sincronizar é operar direito autoral, território, valor simbólico, remuneração, tempo de uso, contexto narrativo e ética de mercado — tudo ao mesmo tempo.
No caso desta sincronização, houve contrato claro, definição de território, prazo, natureza do uso, ausência de exploração comercial direta, preservação dos direitos morais e respeito à obra.
Houve diálogo entre editoras, houve negociação justa, houve intenção cultural explícita.
Nada disso é detalhe.
Tudo isso é estrutura.
Sincronização é governança cultural aplicada
Cada processo de sincronização responde a perguntas que definem quem participa do ecossistema musical e quem fica à margem:
Quem detém os direitos?
Quem autoriza?
Quem remunera?
Por quanto tempo?
Em quais territórios?
Sob quais condições?
Essas escolhas moldam o mercado. E, no Brasil, o mercado cultural ainda opera majoritariamente sem política pública estruturada para esse nível da cadeia.
Produzimos muito. Criamos muito.
Mas seguimos com um vazio exatamente onde o valor se consolida: entre a criação e a circulação qualificada.
E é nesse lugar que a GRV faz a diferença…
No Brasil, não temos diretrizes públicas claras para sincronização musical em obras audiovisuais financiadas com recursos públicos.
Não temos dados consistentes sobre quem está sendo licenciado, de onde vem essa música, quem recebe e quanto recebe.
Não temos formação continuada em direito autoral aplicada à prática de mercado.
Esse vazio não é neutro.
Ele favorece quem já domina códigos jurídicos, redes de decisão e estruturas administrativas. E empurra para fora quem depende de mediação qualificada para existir economicamente.
Quando o Estado financia a produção cultural, mas ignora os mecanismos de circulação, licenciamento e uso, ele financia o começo e celebra o fim, deixando o meio — justamente o espaço do trabalho — entregue à lógica mais dura do mercado.
A posição da GRV é clara
Sincronização não pode ser tratada como subproduto da indústria cultural.
Ela é instrumento estratégico de política cultural, com impacto direto sobre renda, diversidade, memória, território e soberania simbólica.
Quando uma obra como Rosas entra num filme a partir de um processo ético, transparente e juridicamente sólido, isso não deveria ser exceção virtuosa. Deveria ser procedimento padrão.
Editoras independentes, como a GRV, não existem apenas para “resolver contratos”. Elas existem para governar acesso, equilibrar relações e impedir que a lógica da escala e da aceleração destrua o valor da criação.
Editar é proteger.
Licenciar é negociar poder.
Sincronizar é decidir quem faz parte da história que está sendo contada.
O que precisa mudar — e já
Não se trata de criar novas camadas burocráticas, mas de assumir responsabilidade pública:
– reconhecimento da edição musical como serviço estruturante da política cultural;
– formação técnica para gestores, produtores e artistas;
– dados públicos sobre circulação e uso do repertório brasileiro no audiovisual.
Sem isso, seguiremos falando de diversidade enquanto reproduzimos concentração.
Musicalmente,
Gustavo Vasconcellos