Brasília, 3 de fevereiro de 2026
Onde ouvir a faixa Jahzz Revolta do artista Coletivo Superjazz no álbum Mixtape Fanfarra Pirata, lançado hoje pelo grupo BaianaSystem?
Resposta: Clique aqui!
Como ser artístico que me descobri em 1977, aos dez anos de idade, algo passou a fazer sentido desde então: a verdadeira riqueza nasce do conjunto, do aprendizado coletivo, da harmonia dos sorrisos mediados pelos instrumentos — aqueles que colaboram para a força, o caminho e a expansão.
Como carioca de Copacabana, do meu ângulo de observação, a vida acontece porque há horizontes. E eu pergunto: existe algo mais horizontal do que a criação artística?
Entendo que não. Muito menos na música.
Ou alguém já viu uma banda empilhada, um músico em cima do outro?
A reflexão que proponho neste texto é simples e incômoda: por que razão seres essencialmente horizontais — coletivos, criativos e afetivos — precisam se submeter a estruturas verticais que perpetuam modelos e interesses desequilibrados sobre aqueles que geram a matéria-prima indispensável para que sistemas, cargos e engrenagens se sustentem?
O que sempre me inquietou, olhando a partir do ponto de vista de quem vive do trabalho musical, é a inversão de prioridades. Se toda essa engrenagem só existe a partir da criação de alguém, não deveria sua lógica de funcionamento privilegiar, antes de tudo, o retorno para quem entrega a base que sustenta essa existência?
Como não tenho dúvidas sobre esse desequilíbrio, deixo aqui a pergunta — e também a provocação despertada por uma matéria que li recentemente. A questão, na verdade, já está no título deste texto.
O artigo pode ser acessado aqui.
Ao longo da leitura, percebe-se que a palavra “música” surge quase como um acessório, um ativo industrial a serviço do comércio e do entretenimento. Uma mercadoria cientificamente escolhida, distribuída e potencializada por algoritmos. Mas essa expansão serve a quem? À música e aos seus criadores ou a estruturas estratégicas que não distinguem um dó de um ré, que jamais carregaram instrumentos pelas madrugadas mal remuneradas deste país e que pouco compreendem o trabalho hercúleo da criação e da produção — justamente aquilo que sustenta os resultados que esses sistemas pretendem alcançar?
Quem me conhece sabe que não costumo deixar perguntas sem resposta. E quem me conhece ainda melhor sabe que costumo respondê-las com exemplos.
Falo daqui de Brasília, a partir do meu selo, que dentro de dois meses completará 26 anos de colaborações — como diria o discurso publicitário, “por um mundo melhor”. É a partir dessa trajetória que apresento um lançamento capaz de traduzir, na prática, aquilo em que acredito desde o início.
Atenção ao caminho percorrido entre abril de 2025 e janeiro de 2026.
Tudo começou com uma provocação feita em Brasília por Dudão Melo, participante do Prêmio Profissionais da Música e apresentador do programa Jazz Masters. Para minha surpresa, ele já residia na capital havia dois anos e, ao lado do radialista Mario Sartorello, conduzia o prestigiado projeto Coletivo SuperJazz — uma das mais consistentes e instigantes propostas de intercâmbio musical em atividade no país.
A provocação foi direta: “Vamos criar um selo dedicado à música instrumental?”. Mais ainda: o primeiro lançamento seria do próprio coletivo, que já desenvolvia uma série dividida em volumes, intitulada Contrastes.
O diferencial da série está justamente no nome. Contrastes de sons, timbres e paisagens, construídos a partir da colaboração entre músicos e autores de diferentes regiões do país — entre eles, a potente e profundamente coletiva turma do BaianaSystem.
A ideia do selo ganhou forma em setembro, junto com o lançamento do volume 2 de Contrastes. Em janeiro deste ano, iniciamos 2026 com um novo movimento: os músicos baianos nos procuraram para discutir a inclusão, no álbum que lançam no próximo dia 4, de uma obra criada a dezoito mãos, executada por quatorze músicos e produzida por quatro, às vésperas do Carnaval.
Para que isso fosse possível, entraram em campo as editoras Máquina de Louco, da Bahia, e a GRV, de Brasília, com um princípio claro: ajustar condições que tivessem como prioridade valorizar o valor.
E quem ficou fora da construção inicial?
Os filtros automáticos, as métricas de curto prazo e a lógica da aceleração artificial.
Como costuma acontecer, esses mecanismos reaparecem mais adiante — em caso de sucesso, claro. Mas o percurso até aqui foi outro: sem intermediações inúteis, guiado apenas pelo ritmo orgânico de uma obra de arte.
Conclusão: a expansão da música acontece assim. Quanto à indústria — especialmente aquela que conhecemos melhor desde a migração do vinil para o CD, na segunda metade dos anos 1980 —, suas engrenagens estão amplamente descritas nos manuais do neoliberalismo aplicados à economia criativa.
A música, no entanto, sempre soube outro caminho.
Musicalmente,
Gustavo Vasconcellos