Audiovisual x Música: por que um gera mais empregos formais que o outro?
A PARADA DA MÚSICA #002.2026
Brasília, 20 de janeiro de 2026
Há um tipo de música que a gente não escuta no streaming. Ela não aparece nos rankings, não depende de playlist editorial e não pede like.
Ela acontece no cinema.
E quando um filme encontra sua trilha sonora, não nasce apenas uma “combinação estética”: nasce uma cadeia produtiva inteira, com empregos formais, arrecadação, investimento, exportação de conteúdo e poder simbólico. É por isso que, quando falamos sobre indústria criativa no Brasil, o cinema — e especialmente o audiovisual — não pode mais ser tratado como “parente cultural da música”. Não é.
Hoje, o audiovisual é também um sistema industrial em expansão. E, ao olhar de perto, ele escancara uma pergunta que a música brasileira vem evitando há tempo demais:
Por que duas indústrias que geram desejo, identidade e consumo são tratadas, na prática, com pesos tão diferentes?
Minha resposta: O cinema não cresceu por acaso. Ele cresceu porque virou “infraestrutura de futuro”
O filme O Agente Secreto entra nessa conversa como um símbolo: além do enredo em si e porque evidencia algo maior — o momento em que o Brasil passou a entender que audiovisual é ativo estratégico.
Não se trata de opinião. Se trata de pragmatismo:
- audiovisual gera cadeias longas (pré, produção, pós, finalização, exibição, distribuição, licenciamento)
- movimenta serviços especializados (técnicos, fornecedores, locação, equipamentos, direitos, transporte, alimentação, hotelaria, seguros)
- e cria um ciclo de valor que pode ser mensurado com mais facilidade: bilheteria + catálogo + venda para plataformas + co-produções + circulação internacional.
Enquanto isso, a música — especialmente a independente — continua sendo tratada como algo que “acontece” por talento e insistência, e não como indústria com previsibilidade.
E aqui mora o choque mais duro:
- O audiovisual aprendeu a se financiar
- O audiovisual aprendeu a prestar contas
- O audiovisual aprendeu a converter cultura em política econômica
A trilha sonora é o ponto de encontro entre duas economias criativas
A trilha não é um detalhe do filme.Ela é um setor. É direito autoral, sincronização, licenciamento, curadoria, direção musical, composição original, músicos contratados, gravação, mix, master, editoração e gestão de catálogo.
Ou seja: é emprego e renda.
No discurso, todo mundo “ama música”. Mas na prática, a música brasileira virou uma indústria onde o artista é empreendedor involuntário — bancando lançamento, vídeo, imprensa, equipe, circulação e marketing — para disputar atenção num sistema dominado por plataformas e um modelo global de remuneração desigual.
O audiovisual, por outro lado, mesmo com crises e gargalos, ainda opera com uma lógica mais objetiva: o custo existe, o financiamento existe, o cronograma existe, a entrega tem formato, e o produto final é vendável como pacote.
É duro dizer, mas necessário: a música muitas vezes vende “esperança”. o audiovisual vende “projeto”.
O gatilho dessa reflexão: uma palestra em um festival que virou entrevista e um programa que ainda nem foi ao ar
Essa análise não nasceu do nada.
Ela foi acendida em setembro do ano passado, na USP, durante o Festival Musimagem, quando Gustavo Vasconcellos entrevistou Matheus Alves com uma provocação para todos nós: o cinema se expandiu como indústria e a música precisa parar de se enxergar apenas como cena?
Um detalhe quase cinematográfico:quando gravamos, O Agente Secreto ainda nem havia sido exibido — e dessa vivência nasceu um registro fundamental; qual seja, mais um programa da parceria entre PPM e Music Box Braszil, com produção da GRV.
E é exatamente isso que torna esse momento tão valioso: porque quando a arte antecipa a realidade, ela vira alerta. E quando vira alerta, deixa de ser conteúdo e vira ferramenta de leitura de cenário.
Seis premissas para atravessar 2026 sem ser engolido por ele(e por que isso importa para música e audiovisual)
Se existe um desastre se avizinhando em 2026 — e ele pode ser econômico, político, social e cultural — ele não virá com sirene. Ele virá com decisões erradas.
E por isso, antes de falar de indústria, precisamos falar de método.
1) Grande parte das perdas não vem de grandes crises, mas de decisões mal informadas
Nem sempre é o tombo que derruba.
Às vezes é o desespero.
É a decisão tomada “no calor do momento”.
É a aposta em “atalhos”.
É a promessa simplista vendida como solução.
Em momentos turbulentos, o maior risco é confundir movimento com estratégia.
2) Entrar em modas ou seguir previsões isoladas costuma custar caro
O mercado cultural vive em ondas.
O algoritmo vive em pânico.
E a mídia vive de urgência.
Mas indústria não se sustenta em impulso.Se sustenta em consistência.
Quem reage o tempo inteiro vive correndo atrás do prejuízo — e um ano como 2026 pode ser impiedoso com quem não tem base.
3) Investir melhor exige genialidade ou acesso privilegiado?
Essa é a mentira mais confortável.Porque ela nos permite culpar “o sistema” e continuar no improviso.
A verdade: investir melhor nem sempre exige genialidade.Exige disciplina, leitura e estrutura mínima.
4) Ou seria método, leitura de cenário e consciência dos riscos envolvidos?
Sim. As indústrias que atravessam turbulências com mais estabilidade não são as “mais bonitas”.
São as que desenvolvem:
- planejamento
- diversificação
- previsibilidade de receita
- contratos claros
- cultura de dados e avaliação
O audiovisual está mais perto disso.A música precisa correr para não ficar para trás.
5) É isso que diferencia quem atravessa anos difíceis com tranquilidade…
… de quem passa o tempo inteiro remendando, cortando custo, apagando incêndio e ficando refém do acaso.
Quem sobrevive a anos duros não é quem “acerta sempre”.É quem erra pequeno e corrige cedo.
6) Conclusão: só superamos se entendermos o campo das ideias que une o povo
Indústria é economia, sim. Mas cultura é também pacto social.
E o que une o Brasil — acima de qualquer setor — é o campo das ideias que nos forma como povo:
- Pertencimento
- Memória
- Repertório
- Emoção compartilhada
- Identidade coletiva
A música e o audiovisual não competem.Eles se completam.
A trilha sonora de um filme é, muitas vezes, o que transforma uma história em lembrança. E o cinema é, muitas vezes, o que devolve à música um lugar de permanência e valor.
O ponto não é escolher um lado. É escolher um método.
O que O Agente Secreto evidencia não é apenas a força do audiovisual. Ele evidencia que o Brasil — finalmente — pode estar aprendendo a tratar cultura como infraestrutura de futuro.
Agora, a pergunta que fica para nós, da música, é direta: vamos seguir sobrevivendo de paixão e improviso, ou vamos operar com estratégia, visão e estabilidade?
Porque se 2026 é um ano de risco, ele também pode ser um ano de virada. E o futuro da música brasileira depende de decisão, de estrutura e do que sempre sustentou esse país nos momentos mais duros: as ideias que nos unem.
Musicalmente,
Gustavo Vasconcellos